Dicas literárias: Graciliano Ramos e Vidas Secas

Primogênito, dentre 16 rebentos tidos pelo casal Ramos, precocemente o menino aprendeu que a vida seria pouco delicada, e que predominaria em sua jornada, a aspereza...
A mão, ferramenta essencial ao carinho, mãos, que poderiam lhe dar afeto, apenas marcavam seu corpo com pancadas, apenas com os punhos cerrados. Assim cresceu nosso menino miúdo e acuado, em meio à imensidão de irmãos e raro diálogo na relação familiar, entre as cidades de Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios (AL) e Buque (PE).


Espantalhos da fome: a seca que fere e deixa marcas

Menino que observara o caminhar dos fugitivos da seca, verdadeiros “espantalhos da fome”, que marcaram intimamente nosso menino. Menino perseguido e preso pela ditadura militar, que se tornou um dos ícones da nossa literatura, e um dos mais engajados socialmente, Graciliano Ramos.
Muito de sua própria vida e experiência consta na obra “vidas secas” datado de 1938. Inserido dentro do segundo momento modernista (1930-1945), Graciliano quebra os paradigmas modernistas, configurando sua estética como além de um ciclo regionalista, pois a universalidade de seus textos ultrapassava o simples regionalismo pitoresco, tão em voga naquele instante.
O livro é ambientado no mundo catastrófico e desumano da seca, onde a opressão exercida pelo poder (soldado amarelo, representante do fascismo da era Vargas) e a falta de comunicação entre a família (sinhá Vitória, Fabiano, menino mais velho, menino mais novo, e o Pai), mostram seres animalizados pela miséria na qual sobrevivem. A cadela Baleia, ironicamente, é o contraponto humano da narrativa. É dela também, a passagem mais dramática do livro; a descrição de sua morte.

Vida real e ficção se encontram

Em “Vidas Secas” há uma completa identificação entre personagens e o mundo descrito ao redor deles; cenário e vidas, confundem-se. O “germe” da obra surgiu independente, um conto criado despretensiosamente para ser vendido a um jornal brasileiro e outro argentino. Um conto chamado “Baleia”, que fez tanto sucesso, que teve como sucessor “Fabiano”...
Foi deste modo que o grande “Graça” foi tecendo sua obra prima. Uma obra engajada politicamente, no sentido de denunciar a falta de voz de um povo sofredor e destruído humanamente pela seca, meio social, pelo poder, uma verdadeira análise da condição (des) humana desse povo.

A estrutura textual em Vidas Secas

Composto por 13 capítulos, soando como contos devido a estrutura com a qual foram construídos, o enredo se organiza pela proximidade do primeiro capítulo (mudança) e o último (fuga), sendo que do capítulo 2 ao 12, a família vive como agregada numa fazenda onde Fabiano trabalha.
A questão central da narrativa não está nos acontecimentos, mas nas criaturas que povoam as cenas. Parafraseando Antonio Candido, ocorre a preponderância do problema sobre o personagem, como acontece com Fabiano, que é preso por ser incapaz de se comunicar claramente.

Exemplo de literatura da melhor qualidade

Vidas Secas é, portanto, um exemplo de porque Graciliano Ramos é um dos principais nomes da nossa literatura, revelando neste romance de tensão crítica, a desgraça humana numa linguagem econômica, seca, sem ornamentos linguísticos ou efeitos pirotécnicos. Seco, como a realidade dos oprimidos.
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